abril 1, 2020

Publicado por: Clave Consultoria

A Mentira no Cotidiano Organizacional

A mentira é um dos comportamentos humanos mais comuns e ao mesmo tempo, um dos mais complexos. Totalmente indesculpável em algumas situações mas, afirmam alguns especialistas, é um dos elementos mais importantes para a manutenção das relações sociais.

Polêmico? Talvez, mas a questão é profunda.

A Associação Americana de Psicologia já afirmou, em mais de uma ocasião, que não existem evidências científicas para as chamadas técnicas de detecção de mentiras. Apesar da famosa série de tv Lie to Me ser baseada no trabalho do psicólogo americano Paul Eckman, a verdade é que se trata mais de entretenimento do que retrato da realidade.

O fato é que todas as pessoas mentem!

Pesquisas na área mostram que mesmo que a mentira contada seja desaprovada socialmente, isso não inibe o comportamento mentiroso. O que ocorre é que a mentira tem certas vantagens sociais. Razão pela qual boa parte das pessoas justifica suas mentiras. Afinal, por que eu vou dizer para o meu chefe que detestei a roupa nova dele?

A grande questão em relação a mentira diz respeito ao contexto onde ela é usada e com qual objetivo. Se for socialmente considerada justificável, a tendência é que as pessoas vão aceitar a mentira, seja para evitar conflitos ou manter as relações sociais. Existe, portanto uma questão do limite que nós arbitrariamente criamos para dizer se é prejudicial ou não contar uma mentira.

“It says that when people think about being dishonest, they think about ‘What can I gain? What can I lose?’ and figure out if this is a worthwhile act of dishonesty. If there’s a big cost, we’re not going to be dishonest.” (Dan Ariely)

Em um experimento famoso, Dan Ariely, autor de Previsivelmente Irracional , utilizou uma máquina de venda automática, dessas onde compramos refrigerantes ou pequenos lanches. Nesse caso, a máquina foi montada para indicar que os pacotes de doces custavam 75 centavos, quando na verdade o custo programado era zero. Assim, quando as pessoas colocavam dinheiro na máquina de venda, eles recebiam pacotes extras de doces, além de todo o dinheiro de volta como troco. Havia um aviso na máquina com um número de celular (do próprio Ariely) para ligar caso houvesse um problema com a máquina – ninguém ligou, mas por outro lado, ninguém levou mais que quatro pacotes de doces.  O interessante desse experimento é exatamente o limite arbitrário: até quatro pacotes, tudo bem mentir, mas a partir daí não.

No ambiente de trabalho, essa relação fica ainda mais complexa. Envolve não apenas a hierarquia das organizações, mas também uma série de variáveis que não estão presentes no ambiente social. Em algumas situações, ainda que não haja mentira exatamente, a forma de comunicação pode induzir ao erro – os descontos “a partir de 50%”, os asteriscos das promoções, e etc.

Por mais que seja um comportamento amplamente aceito, cabe uma reflexão importante, especialmente nesses tempos de fake News:

Quais os verdadeiros impactos das mentiras contadas no ambiente de trabalho?

O colega que não recebe o feedback completo talvez nunca vá saber que precisa melhorar determinado comportamento. Será que isso não vai acabar impedindo seu crescimento profissional? Ao não dar o feedback estamos ajudando a sabotar sua carreira? Os clientes que são levados ao engano por uma determinada promoção, não podem acabar se tornando detratores da marca e no médio prazo gerarem um prejuízo maior do que o ganho obtido com a promoção enganosa?

E afinal de contas, o receio de tratar as questões importantes no ambiente de trabalho com mais clareza, não pode ser um reflexo de nossa própria dificuldade de lidar com tais questões? Não haveria aí uma questão individual importante?

Em um contexto onde cada vez mais destacamos a importância da honestidade e da transparência, o uso “social” da mentira não acaba prejudicando mais do que ajudando nossa caminhada dentro das organizações?

A chave para a mudança de postura é o autoconhecimento. O pesquisador Dan Ariely realizou experimentos nos quais demonstrou que, ao estimular as pessoas a pensar em sua moral ou ética pessoal naturalmente elas mudam seu comportamento para uma direção mais honesta.

Ariely e seus colegas pediram a um grupo de participantes do estudo que se lembrassem dos Dez Mandamentos, e o outro grupo lembrasse 10 livros que haviam lido no ensino médio. Depois eles executaram tarefas baseadas em recompensas, projetadas para medir a honestidade. Enquanto o grupo que lembrou dos livros apresentou os costumeiros comportamentos de mentira, ainda que moderadas, o grupo que lembrou os Dez Mandamentos não trapaceou. Mesmo quando o experimento foi realizado com ateus, o resultado foi o mesmo.

Assim, no âmbito organizacional, é essencial discutir os valores e propósito das organizações, lembrando o tempo todo quais são as razões pelas quais estamos nas empresas onde estamos. Elementos como os valores e a missão devem ser norteadores do comportamento, não apenas no discurso, mas na prática.

No âmbito individual é importante não apenas fazer essas reflexões, mas principalmente buscar o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal constante, adotando posturas mais honestas, objetivas e transparentes.

Conhece algum “mentiroso do bem”?

Conte para gente!

Luiz Victorino

É Ph.D, Head de Research and Methodology e Consultor de Estratégia da Clave Consultoria. Atua há mais de 15 anos em projetos nacionais e internacionais em gestão de pessoas e estratégia organizacional, além de pesquisas na área de Psicologia do Trabalho e das Organizações.