maio 26, 2020

Publicado por: Clave Consultoria

Como está a sua rotina na quarentena?

 

Tem pessoas se adaptando tão bem e eu continuo lutando para estabelecer uma rotina, mesmo para as coisas simples.

Se essa é sua situação, fique tranquilo. Existem dois aspectos importantes sobre a adaptação que ainda não te contaram, mas que nós vamos discutir nesse texto.

Ao falar sobre ser produtivo na quarentena, você provavelmente ouviu respostas como: “CLARO! … assisti milhares de lives, li dezenas de livros, fiz todos os cursos online que gostaria, participei religiosamente das aulas dos meus filhos, mantive meu lar impecável e estou em forma por conseguir manter a mesma rotina de exercícios diariamente”.

Sem dúvida, nós estamos fazendo um esforço enorme para nos adaptar, e ainda que alguns já tenham obtido sucesso, muitos ainda estão no processo.

 
Nesse sentido, existem dois aspectos importantíssimos que precisam ser levados em consideração e vamos abordar na sequência: a curva de mudança e a carga alostática.

Primeiramente, vamos a 1969, quando Elisabeth Kubler-Ross desenvolveu a chamada Curva de Mudança. Segundo a autora, quando precisamos nos adaptar a alguma mudança, passamos por estágios distintos, que devem ser vivenciados como pré-requisitos para uma adaptação adequada.

Rotina

Inicialmente temos o Choque, que é a reação ao evento gerador da mudança, e depois temos a Negação, que é a tentativa de anular a necessidade ou importância da mudança. Passado esse estágio, entramos na Frustração, pelas expectativas de futuro que tínhamos e agora são incertas. Vem então a Depressão (aqui não no sentido clínico), quando nos sentimos com pouca energia e desmotivados para a mudança. Essa é a pior etapa do processo.

A partir daí começamos a fazer os movimentos iniciais de adaptação, na fase de Experimentação. Com os sucessos e insucessos dessa fase, desenvolvemos o necessário para a etapa de Decisão, quando estamos efetivamente aprendendo melhor a vivenciar a situação pós-mudança. Por fim, entramos na etapa de Integração, quando todas as mudanças estão instaladas e vivenciamos um senso renovado de propósito.

O tempo para passagem por cada estágio varia de pessoa para pessoa, e vale lembrar que não necessariamente todas passem por todos os estágios.

Pois bem, vale a pena lembrar que embora estejamos todos vivenciando a mesma situação, a experienciamos de formas completamente diferentes. Entender a etapa do processo na qual você se encontra e o que está sentindo é o primeiro passo e um bom começo.

O segundo ponto que vamos discutir é a chamada carga alostática.

De acordo com Nancy Sin, professora assistente de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica, diante de situações estressantes como essa que estamos vivenciando, existem respostas fisiológicas em nossos corpos. “Nossos hormônios do estresse aumentam. Nós nos preparamos para lutar ou fugir ”.

 

Adicional ao momento de adaptação à novas rotinas nos nossos lares e trabalhos, também temos muitas adaptações fisiológicas acontecendo. Isso ocorre todas as vezes em que nos sentimos preocupados ou estressados.

Essas tentativas de adaptação repetidas tanto fisiológicas, como psicológicas, se prolongadas podem se acumular em forma de carga alostática. Mas o que é alostase afinal?

O “termo carga alostática” foi criado por McEwen e Stellar (1993) com um sentido de acumulação das diversas tentativas de adaptação

Os fatores estressores nos forçam a constantes adaptações, mas nosso corpo e cérebro estão preparados para isso e conseguem gerenciar os esforços de adaptação e nos deixar funcionando em uma faixa de normalidade. Você pode se sentir mais ou menos cansado de uma semana para a outra, mas consegue trabalhar bem nesse período. Essas respostas adaptativas (alostáticas) quando duram um pequeno intervalo de tempo, são um modo adequado de resposta aos estímulos estressores.

O problema é que esta mesma resposta, mantendo-se por longo prazo ou de modo freqüente, ultrapassa nossos limites de adaptação, podendo gerar desequilíbrio e doença.

Portanto, quando somos expostos repetidamente a situações de stress, existe um acúmulo da chamada carga alostática. E mesmo quando o fator estressor é resolvido, o acúmulo ainda pode estar fazendo efeito, pois o fato é que seu cérebro ainda está lidando com a ansiedade e a tensão da situação inicial.

A pandemia nos trouxe um alto nível de mudança e todos estamos nos acostumando a um novo normal. Essa mudança atingiu muitos de nós emocionalmente – levando a novos níveis de ansiedade, medo e tristeza.

As sensações de cansaço, desânimo, dificuldades de atenção e memória, podem ser sintomas do acúmulo de carga alostática.

“A incerteza é um dos maiores elementos que contribuem para a nossa experiência de estresse”, disse Lynn Bufka, diretora sênior de Prática, Pesquisa e Política da American Psychological Association. “Parte do que tentamos fazer para funcionar em nossa sociedade é ter alguma estrutura, alguma previsibilidade. Quando temos esse tipo de coisa, a vida parece mais administrável, porque você não precisa gastar energia para entender essas coisas.”

Considerando então a curva de adaptação a mudança e a carga alostática, o que podemos fazer? Temos duas dicas importantes nesse sentido:

1. ACEITAÇÃO

Primeiro, sinta seus sentimentos, sem julgamento. Aceitar suas vulnerabilidades faz parte do processo.

Aceitar que não estarei bem e produtivo todos os dias faz parte desse processo para tornar a rotina mais leve. Desta forma, poderá encarar outras atividades que te proporcionam prazer de forma leve.

Tente identificar o estado de adaptação a mudança no qual você está e entenda que ele é necessário para que você evolua para o próximo.

2. MOVA-SE

Sabemos que isso tem sido extremamente desafiador para muitos, mas exercitar-se, comer bem e tentar manter um ciclo regular de sono pode ajudar.

“Se você não está movendo seus músculos, provavelmente também está ganhando um pouco de gordura em torno desses músculos”, disse Slavich. Nossas células imunológicas tendem a ficar com excesso de gordura na barriga e podem aumentar a inflamação. “É de fato a inflamação o principal fator para se sentir cansado. A inflamação pode mudar a maneira como pensamos e dormimos e nos deixa muito menos interessados ​​em atividades prazerosas”.

Isso significa então, que se puder se levantar e adicionar à sua rotina uma simples aula de ioga, provavelmente o restante o seu dia será mais fácil.

Portanto, novamente gostaríamos de lembrar que cada um de nós irá vivenciar os estágios da mudança de forma complemente diferente, e o fundamental para que passemos por isso de forma mais equilibrada é aceitar. Aceitar-se como é, aceitar o que pode ou não fazer naquele momento, aceitar que é imperfeito e alguns dias serão bons e outros não.

Esperamos que gostem e compartilhem conosco suas visões sobre o tema.

Até o próximo!

Débora Honda

É sócia diretora da Clave Consultoria, atua há mais de 15 anos em projetos de ganho de performance e aprendizagem nos principais setores da economia. Especialista em Mapeamento de Perfil com projetos nacionais e internacionais de transformação do ambiente organizacional. Pesquisadora sobre os impactos da transformação digital no futuro do mercado de trabalho, já auxiliou grandes companhias na construção de suas estratégias de Talent Management.

Luiz Victorino

É Ph.D, Head de Research and Methodology e Consultor de Estratégia da Clave Consultoria. Atua há mais de 15 anos em projetos nacionais e internacionais em gestão de pessoas e estratégia organizacional, além de pesquisas na área de Psicologia do Trabalho e das Organizações.