Empatia: intervalo de jogo, o que fazer entre o primeiro e o segundo tempo

Usa sua imaginação e empatia, e pense em sua vida profissional como um jogo de futebol: Você se preparou, fez seletivas, entrou em um time e estava em pleno jogo. Na velocidade do dia a dia, com o jogo acontecendo, há pouco tempo para fazer ajustes e melhorias, certo? Você entra, segue o plano, improvisa de vez em quando, mas no geral precisa correr, porque o relógio não para e o time adversário tampouco espera.

No frenesi do jogo, não pensamos muito para além do gol e vivemos um carrossel de emoções, nos sentindo mais ou menos motivados dependendo de vários fatores – o placar, nosso cansaço, o vigor do adversário, etc.

No entanto, sem muita previsão, nosso jogo foi interrompido. Como uma partida de futebol onde a chuva fica muito forte, raios tomam conta do céu e os times são forçados a parar e observar, avaliando quando o jogo poderá retornar. Nesse cenário, é provável que surjam sentimentos dos mais diversos – frustração, por perder o bom ritmo que vínhamos impondo, incerteza pela retomada da partida, ansiedade, tensão…

Digamos que no nosso jogo hipotético, a chuva tenha vindo exatamente no apito final do primeiro tempo. Ao invés de ficar em campo, olhando para o céu escuro e tentando achar indícios para uma leitura de futuro (“as nuvens estão se desfazendo, deve passar logo”, “pelo visto a chuva não para tão cedo”), um bom técnico traria seu time para o vestiário.

É necessário por um momento, sentar, tomar uma água e respirar.

Fomos obrigados a parar e adaptar nosso jogo, certo? Retornando, teremos campo molhado, grama pesada, bola escorregadia… Mas teremos jogo!

É natural nesses momentos, que venham sentimentos de medo, ansiedade e tensão. Repetimos, isso é natural. Se permita sentir todas essas coisas, porque adivinhe só, mesmo os melhores jogadores sentem.

Esses mesmos jogadores aproveitam essa pausa para fazer um olhar para dentro. Faça essa pausa.

É normal que seu cérebro leve um tempo para se ajustar a uma mudança tão brusca quanto a que estamos vivendo. Se você ainda não se ajustou, sente ansiedade, tem dificuldades com horários de acordar e dormir, está tenso, oscilando entre acompanhar as notícias ou se isolar delas, tudo bem.

Agradeça por essas sensações, pois elas são sinais dos movimentos de adaptação que seu cérebro está fazendo. Se é o seu caso, foque no essencial – alimentação, sono e família.

Opte por ignorar algumas coisas (os “hiperprodutivos da quarentena”, as lives de yoga, os inúmeros webinars) e primeiro permita-se a adaptação.

Converse com seu time, divida angústias e use sua rede de apoio para se sentir seguro. Seu cérebro é especialista em adaptação, foi assim que evolutivamente chegamos até aqui e você vai se adaptar mais rápido do que imagina, pode confiar. Você se adaptou a diversas coisas ao longo da sua vida, muitas delas jurou que nunca conseguiria.

Pense um pouco sobre isso e deixe seu cérebro fazer o trabalho dele.   

Voltando ao nosso jogo hipotético, tendo bebido sua água, respirado, conversado com seu colega de posição e mais calmo, vamos voltar o olhar para dentro.

O time vinha jogando bem? Você vinha jogando bem? Tinha alguma dificuldade? Batia bem faltas com bola parada, mas tinha dificuldade em bater pênaltis?

Aproveite o momento que estamos vivendo para se conhecer melhor, se avaliar, entender seus pontos fortes (pois foram eles que te trouxeram até aqui) e analisar seus pontos a melhorar (pois trabalhar neles é o que vai te levar adiante).

Que estamos vivendo constantemente em transformação, todos já sabemos. E que precisaremos mudar para nos adaptar … também não é nenhuma novidade, especialmente diante do atual cenário.

“Para algumas organizações, a sobrevivência no curto prazo é o único item da agenda. Outras estão espiando através da cortina de incertezas, pensando como irão se posicionar uma vez que a crise tiver passado e as coisas voltarem ao normal. A questão é: como será esse ‘normal’? Embora ninguém possa dizer quanto tempo a crise durará, o que vemos do outro lado não se parecerá ao normal dos últimos anos.”  (Ian Davis)

Diante desta nova realidade, participaremos ativamente de uma reestruturação de ordem social e econômica na qual as empresas e a sociedade que funcionavam tradicionalmente, precisarão se transformar. E isso é uma oportunidade fantástica, para mudarmos e evoluirmos – vamos mexer na nossa forma de jogar, tentar jogadas diferentes e porque não, ousar um pouco.

A crise revelará não apenas vulnerabilidades, mas estão surgindo e surgirão diversas oportunidades para melhorar a performance das empresas. Líderes estão sendo desafiados a avaliar quais custos são realmente fixos e quais são variáveis, revelando o que é absolutamente indispensável.

Agora você deve estar se perguntando, e como isso se conecta comigo?! Você faz parte do time e pode ser um jogador essencial no segundo tempo!

Neste cenário, para liderança de equipes diante da “nova normalidade”, será necessária além de uma boa dose de criatividade, uma heart skill amplamente conhecida e explorada, a empatia. Uma vez que o desenvolvimento da capacidade empática é peça chave para o entendimento das verdadeiras necessidades do outro.

Dra. Brené Brown, professora e pesquisadora na Universidade de Houston, famosa por falar e escrever sobre coragem e vulnerabilidade, define a empatia como “o sentir com as pessoas”.

É o momento em que os jogadores se unem em círculo, se olham, se apoiam e seguem juntos para a próxima etapa.

Considere por exemplo as quatro qualidades da empatia que a Dra Brown destaca:

  • a capacidade de adotar a perspectiva de outra pessoa;
  • afastar-se do julgamento;
  • reconhecer a emoção nos outros;
  • comunicá-la.

Facilmente observamos essas qualidades em times que performam bem. E isso só é possível porque os jogadores se conhecem e confiam uns nos outros – são empáticos.

Destaca também a diferença entre empatia e simpatia, ilustrada de forma simples e irreverente em seu famoso vídeo Brené Brown on Empathy, onde demonstra de que forma a empatia alimenta conexões. Mas, para sermos capazes de estabelecer conexões empáticas genuínas, precisamos ter coragem suficiente para de fato entrar em contato com nossas próprias fragilidades.

E o que ganho com isso?

Pessoas com elevado nível de autoconhecimento, são capazes de entrar em contato com as suas vulnerabilidades e estabelecem relações de confiança, troca e são mais produtivas.

“Quando as pessoas não expressam suas opiniões e não sentem que foram ouvidas, elas não se comprometem”

(Os 5 desafios das equipes, Patrick Lencioni)

Lencioni reforça que equipes com excelentes resultados normalmente apresentam essas cinco características bem resolvidas:

  1. Confiam uns nos outros.
  2. Se envolvem em conflitos nos quais tudo é debatido, inclusive assuntos difíceis e delicados.
  3. Se comprometem verdadeiramente com as decisões e planos de ação da equipe, mesmo havendo discordância inicial.
  4. Chamam atenção dos colegas quando estes agem contra os planos e resultados da equipe.
  5. Focam mais em alcançar os objetivos coletivos.

O segundo tempo está aí, seu time precisa estar em campo e precisaremos cada vez mais ter equipes produtivas e coesas, certo? Então pare, respire, olhe para si e siga em frente.

Também acredita que o autoconhecimento pode te auxiliar a ter mais clareza sobre a performance do seu time?

Compartilhe conosco as suas percepções.

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Débora Honda é sócia diretora da Clave Consultoria, atua há mais de 15 anos em projetos de ganho de performance e aprendizagem nos principais setores da economia. Especialista em Mapeamento de Perfil com projetos nacionais e internacionais de transformação do ambiente organizacional. Pesquisadora sobre os impactos da transformação digital no futuro do mercado de trabalho, já auxiliou grandes companhias na construção de suas estratégias de Talent Management.

Luiz Victorino é Ph.D, pesquisador e consultor de estratégia da Clave Consultoria. Atua há mais de 15 anos em projetos nacionais e internacionais em gestão de pessoas e estratégia organizacional, além de pesquisas na área de Psicologia do Trabalho e das Organizações.