Trabalho, necessidade ou propósito? O que te move?

Imagine que você ganha a vida como taxista, e diante da baixa demanda e riscos de contágio com COVID-19, muitos de seus colegas resolvem interromper as atividades. Mas você persiste, e não somente continua a trabalhar, mas também se dispõe a transportar gratuitamente passageiros para o hospital.

 

Ele pensou na necessidade de levar o sustento para casa ou  no propósito do seu trabalho?

 

Essa é uma história real que aconteceu no Hospital Ramón y Cajal em Madri, e nos leva à seguinte reflexão, qual o significado do trabalho para você?

Pare por um momento e pense na palavra “trabalho”. Ela evoca em você sentimentos bons, ruins, conflitantes? E quando você pensa no seu trabalho, quais são os sentimentos que surgem?

Será que se você encontrar o emprego dos sonhos, tiver uma promoção, ficar em forma, a felicidade vem? Ou se trabalhar duro será mais bem sucedido? E se for bem sucedido será mais feliz?

Descobertas no campo da psicologia positiva mostram que, na verdade, essa fórmula funciona de maneira inversa: a felicidade é o que gera o sucesso, e não o sucesso que gera a felicidade. E foi exatamente isso que aconteceu com o nosso amigo taxista de Madri, quando foi chamado para retornar ao hospital, no qual havia levado alguns pacientes gratuitamente, e ao chegar se deparou com a equipe médica o aplaudindo.

“O desejo de agir com sentido em nosso trabalho parece uma parte tão importante de nossa estrutura como nosso apetite por dinheiro ou status”.

 (Alain de Botton)

 

Será que ao transportar esses pacientes, o motorista em algum momento se preocupou com o preço do combustível ou com as horas que estaria “perdendo” ao realizar essas corridas? Imaginamos que não, pois ele não se limitou a agir como a média e se empenhou para fazer o melhor que podia diante de cada situação e obstáculo encontrado.

De acordo com Shawn Achor, a felicidade e otimismo são premissas básicas para um melhor rendimento em todos os campos. Em seu livro “O Jeito Harvard de Ser Feliz”, ele discorre a respeito das vantagens da felicidade.

De acordo com dados científicos, o cérebro em um estado positivo tem um desempenho significativamente melhor do que no estado negativo, neutro ou estressado.1 Desta forma, se  conseguirmos manter o cérebro positivo no presente, saberemos não apenas como ter sucesso na vida, mas também como trabalhar mais, mais rápido e melhor.

Shawn Achor apresenta 7 padrões de comportamento específicos, funcionais e comprovados pela ciência para manter o cérebro nesse estado positivo.

  1. O benefício da felicidade

Antes de enfrentar algum desafio, tente relembrar algum momento feliz que você tenha vivido recentemente. A memória de situações felizes ajuda seu cérebro a entrar em um estado de funcionamento mais positivo, com efeitos na criatividade e na motivação, facilitando seu sucesso.

  1. O ponto de apoio e a alavanca

A alavanca é uma estrutura que permite melhores resultados com menos esforço.

Em um experimento com camareiras, metade delas foi informada sobre quanto exercício físico elas faziam durante o trabalho, quantas calorias queimavam, etc. A outra metade não foi informada. Após algumas semanas, aquelas que pensavam nos benefícios físicos do trabalho não apenas haviam perdido peso, como estavam com taxas de colesterol menores.

O ponto chave aqui é tentarmos encontrar as “alavancas mentais” que façam nosso trabalho ser mais leve.

Mesmo nas situações de trabalho mais estressantes, sempre tem algo de bom a ser aprendido – tente manter o foco nesse lado positivo ao invés de reforçar o negativo. Por exemplo, ao invés de reclamar de uma reunião chata, pense como faria a reunião ser mais bem aproveitada, que tipo de recursos utilizaria e exercite sua criatividade, anotando as ideias para usar no futuro.

  1. O Efeito Tetris

Em um experimento, os participantes passaram várias horas por dia jogando o clássico jogo Tetris. Após três dias, eles começaram a usar a lógica de encaixe do jogo em outras áreas da vida, usando o racional do jogo para resolver problemas cotidianos. Isso acontece porque nós temos uma tendência a repetir padrões, o que em alguns casos pode ser ruim, porque isso limita nossa capacidade criativa.

Se criamos um padrão negativo, nossa tendência é repeti-lo, por isso é importante fazer um esforço para criar um padrão positivo. Por exemplo, faça uma lista de três coisas boas que aconteceram durante o seu dia ou um parágrafo contando uma experiência legal. Repita esse exercício sempre que possível.

  1. Encontre oportunidades nas adversidades

Há três caminhos mentais depois de uma adversidade:

  • Ficar onde está, sem mudanças.
  • Ficar pior depois da circunstância desfavorável.
  • Nos tornamos mais fortes e mais capazes de contornar a situação.

Nunca é uma escolha fácil, mas a verdade é que as adversidades são momentos cruciais para o aprendizado. O famoso jogador de basquete Michael Jordan, só foi campeão da NBA depois de perder por dois anos seguidos para o mesmo time nas semi-finais. Ele enfrentava duras críticas por isso e relata que foram as derrotas sucessivas que levaram o time subir o nível e finalmente vencer no ano seguinte.

  1. O círculo do zorro

No filme Zorro, Don Diego (Anthony Hopkins) treina seu discípulo colocando-o dentro de um círculo menor dentro de um círculo maior. E diz: “Este círculo será o seu mundo. Sua vida toda. Não existe nada fora disso até eu dizer.”

Só depois de dominar aquele primeiro círculo, e pouco a pouco os demais, é que o discípulo começou a se transformar em Zorro, a lenda, assumindo o lugar de Don Diego.

Então, restringir seu foco a metas pequenas e realizáveis pode expandir a sua esfera de poder.

Os estudos sobre metas apontam que os chamados “micropassos”, ou seja, pequenas ações realizáveis num espaço de tempo curto e/ou com pouco esforço, são elementos essenciais para alcançar metas maiores.

Pense grande, mas comece pequeno.

  1. A regra dos 20 segundos

Shawn queria aprender a tocar violão. Sabia que levaria 21 dias para formar um novo hábito e todo dia caminhava até seu quarto e tirava o violão de dentro do armário. Todo aquele esforço adicional demorava 20 segundos, até que no quarto dia ele desistiu de tocar.

Shawn usou a energia de ativação a seu favor, comprou um suporte de violão e deixou no meio da sala de estar. E, ao invés de estar a 20 segundos de distância, o violão estava sempre disponível.

Por natureza humana somos conduzidos a ir pelo caminho da menor resistência, que muitas vezes nos leva a procrastinação.

Quanto menos energia for necessária para dar início ao um hábito positivo, mais chances há de esse hábito se desenvolver.

  1. O investimento social

Estudos comprovam que, quanto mais os membros de uma equipe são encorajados a socializar e interagir, mais eles se sentem engajados, mais energia têm e mais tempo conseguem passar concentrados em uma tarefa.

Assim, mesmo com as cobranças do dia a dia, procure ter boas pessoas ao seu redor. Isso pode te ajudar a trilhar mais facilmente um caminho feliz, tendo boas atitudes.

Amanda e Brittney eram colegas de quarto em Harvard. Animadas e espirituosas, no primeiro mês de aula fizeram várias amizades. No entanto, à medida que os exames do primeiro trimestre se aproximavam, os caminhos delas começaram a divergir.

Sob pressão cada vez mais intensa, Amanda encontrou um lugar isolado na biblioteca e passou a maior parte do seu tempo lá. Começou a faltar nas atividades sociais e não tinha tempo para coisas como repartir refeições ou conversar com os colegas. Antes, era jogadora da equipe de frisbee, mas deixou de comparecer aos treinos e aos jogos.

Por outro lado, Brittney, em vez de se isolar, organizava grupos de estudo. Enviou um e-mail a um grupo de seis amigos e propôs que cada um elaborasse um resumo da leitura e se encontrassem no almoço algumas vezes por semana para trocar notas e observações.

Após um ano, Amanda sucumbiu à pressão e ao estresse e desejava ser transferida para uma instituição menos competitiva. Já Brittney estava feliz, bem ajustada e apresentando um desempenho excepcional em seus cursos.

Essas personagens representam as escolhas que fazemos quando nos vemos diante da adversidade. Muitos acreditam que o sucesso é o caminho que deve ser percorrido sozinho, mas isso simplesmente não é verdade.

Lembre-se de interagir socialmente, e não se isolar em atividades e metas. Pensar nas pessoas ao seu redor deve ser um dos seus primeiros passos rumo às conquistas da felicidade.

Também acredita que quando somos guiados por nosso propósito a forma como pensamos é positiva?
Conte para nós.

Até o próximo!

 

Débora Honda é sócia diretora da Clave Consultoria, atua há mais de 15 anos em projetos de ganho de performance e aprendizagem nos principais setores da economia. Especialista em Mapeamento de Perfil com projetos nacionais e internacionais de transformação do ambiente organizacional. Pesquisadora sobre os impactos da transformação digital no futuro do mercado de trabalho, já auxiliou grandes companhias na construção de suas estratégias de Talent Management.

Luiz Victorino é Ph.D, pesquisador e consultor de estratégia da Clave Consultoria. Atua há mais de 15 anos em projetos nacionais e internacionais em gestão de pessoas e estratégia organizacional, além de pesquisas na área de Psicologia do Trabalho e das Organizações.

 

  1. ALLEN, Mark S.; MCCARTHY, Paul J. Be happy in your work: The role of positive psychology in working with change and performance. Journal of Change Management, v. 16, n. 1, p. 55-74, 2016.